Apenas oito dos 40 idosos de um abrigo em Petrolina recebem visitas dos familiares


Quem vê dona Elza de óculos escuros, transbordando simpatia, não imagina como era sua vida há seis meses. Apesar de todo bom humor, a maior parte dos seus 56 anos de idade não foi de alegria. Os dentes ficaram pelo caminho, como prova de tudo aquilo que passou. A convivência com o filho, em Juazeiro, no Norte da Bahia, não foi a desejada por nenhuma mãe. Hoje, ela é uma das 40 pessoas que moram no Cantinho do Aconchego, em Petrolina, Sertão de Pernambuco. Um lar que cuida de idosos da região que, por vários motivos, foram deixados ali.
“Eu morava com meu filho, ele mexia com droga e ficava me maltratando. Como não tinha ninguém para cuidar de mim, aí meu irmão me botou aqui. Meu filho estava me maltratando demais. Aqui é bom”, conta Elza.
O Cantinho foi criado em abril de 2015, pela diretora do local, Edvania do Nascimento. Desde o início, a vontade de cuidar dos idosos convive lado a lado com as dificuldades em manter a casa.
“Eu era cuidadora de idosos no Hospital Dom Malan, aqui em Petrolina, e me apaixonei por idosos. Mais na frente fiz o curso técnico de enfermagem, decidi fazer aquilo que gosto e montei o Cantinho do Aconchego. Foi uma loucura porque montei sem condições nenhuma, somente com amigos, indo atrás de doações. Começamos em uma casa pequena e, com dois meses, estávamos com dez idosos. Aí eu comecei realmente a ver que a necessidade de cuidar do idoso existia. O abandono, os maus-tratos eles existem”.
O Cantinho do Aconchego funciona em uma casa no bairro Palhinhas (Foto: Edvania do Nascimento / Arquivo pessoal )O Cantinho do Aconchego funciona em uma casa no bairro Palhinhas (Foto: Edvania do Nascimento / Arquivo pessoal )
O Cantinho do Aconchego funciona em uma casa no bairro Palhinhas (Foto: Edvania do Nascimento / Arquivo pessoal )
A principal fonte de renda da instituição vem dos benefícios recebidos pelos idosos. Edvania conta que esse dinheiro serve para pagar o aluguel da casa, na Rua padre Valeriano, no bairro Palhinhas, no valor de R$ 3.120, as seis refeições diárias servidas aos moradores, a ajuda de custo para as 23 voluntárias que atuam no local, medicamentos, itens de higiene e outras contas. As doações são sempre bem-vindas. A instituição está com uma campanha para arrecadar fraldas geriátricas e leite em pó.
“A casa precisa de ajuda. Como a gente não tem uma sede própria, um lugar que não pague aluguel, é o que acaba nos pesando muito. A gente acaba sendo carente de tudo. Não só do alimento. A gente é carente do colchão impermeável, de uma poltrona impermeável, conforme a vigilância nos exige. Além do alimento, a gente também precisa dos outros itens. Como a gente vive no limite, não temos condições de pagar salário a nenhuma voluntária. A gente queria muito. Tem amigas que estão comigo desde que a casa abriu. Elas vivem dessa ajuda que a instituição tem que dar, mas estão aqui por amor. Estão aqui porque se apegaram a eles”.

Abandono

Demétrio Crispim Teixeira passou boa parte dos seus 78 anos trabalhando como lavrador, na cidade de Ipirá, no interior da Bahia. Foi assim que criou os três filhos. Hoje, com um lado do corpo paralisado, necessita de cuidados especiais e utiliza uma cadeira de rodas. Desde dezembro de 2015 o aposentado é um dos moradores do Cantinho do Aconchego. “Aqui é mãe, é pai, é minha casa”, diz.
Seu Dedé está há dois anos no Cantinho do Achoncego  (Foto: Emerson Rocha)Seu Dedé está há dois anos no Cantinho do Achoncego  (Foto: Emerson Rocha)
Seu Dedé está há dois anos no Cantinho do Achoncego (Foto: Emerson Rocha)
Seu Dedé, como é conhecido, foi levado para o abrigo pelo filho mais velho. Assim como ele, muitos dos idosos são encaminhados para o local por parentes. A diferença é que, enquanto seu Dedé ainda mantém contato com o filho, a maioria de seus colegas terminam sendo esquecidos pelos familiares.
Edvania divide os moradores do Cantinho do Aconchego em três partes: os que têm a família presente; os que são deixados na casa pelos familiares, mas que nunca recebem visitas; e aqueles que tinham sido abandonados antes mesmo de chegarem ao abrigo. “A gente tem idoso aqui que estava há mais de um ano abandonado no Hospital Regional. Foi levado pelo Samu e…”, conta a diretora da casa, destacando um dado triste.
“Só temos oito que as famílias são presentes. Os outros têm família, mas é como se não tivesse. Não aparecem ou raramente aparecem. Tem um caso aqui que nós estamos há quase dois anos ligando para a família aparecer”.
Segundo Edvânia, a ausência dos familiares é sentida pelos idosos.“Eles são muito carentes. Eles conversam muito, gostam de abraço. Eles sentem falta. Tem um aqui que fica sempre perguntando quando é que vai ter passeio. Eles sentem falta do convívio com a família. É a parte que dói mais”.

Motivos para sorrir

Os idosos que moram no Cantinho do Aconchego têm entre 53 e 102 anos. O mal de Alzheimer faz parte da rotina da casa, reforçando o cuidado especial que deve ser tido com cada um dos moradores. Seu Jurandir, 63 anos, precisa da ajuda das cuidadoras para lembrar de algumas coisas. O que ele não esquece são as filhas, que se mantêm presentes em sua vida, e o time do coração. “Eu sou Santa Cruz”, diz com orgulho, ignorando o recém-rebaixamento do tricolor para a Série C do Campeonato Brasileiro. “É um timão”, garante.
Seu Sebastião e a diretora do Cantinho do Aconchego, Edvania Nascimento (Foto: Emerson Rocha)Seu Sebastião e a diretora do Cantinho do Aconchego, Edvania Nascimento (Foto: Emerson Rocha)
Seu Sebastião e a diretora do Cantinho do Aconchego, Edvania Nascimento (Foto: Emerson Rocha)
A vontade de viver o mundo fora do abrigo ainda seduz alguns dos idosos, como seu Sebastião, 65 anos. Vestido com a camisa do Flamengo e um sorriso fácil, ele brinca com os planos de fuga. “Vou pular o muro para namorar com as meninas lá fora”, diz, sem conter a gargalhada.
O desejo de sair do abrigo não passa de palavras vazias, visto pelo carinho que o idoso mostra ter pela diretora do local. O que seu Sebastião faz mesmo, de verdade, é rir. “Eu sou o velho mais bonito e mais cheiroso daqui”, brinca mais uma vez.
É rindo também que Elza conta um de seus desejos. “Aqui ainda quero arrumar um noivo. 56 anos, ainda sou nova. Tinha muito namorado lá. Tinha muito coroa atrás de mim e eu não quis. Uma hora dessas eu tinha minha casa, meu filho”.

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28 de novembro de 2017 16:40 delete

É uma pena ler isso. Saber que depois de idosos ser esquecidos pelos familiares.
Gostaria de saber como fazer pra ser voluntária nesta casa? Tem algum contato pra eu poder obter informações?

Reply
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Indentifique-se e não seja vulgar!
Obrigado..