Quase metade dos assassinatos de junho foi feminicídio - Blog Petrolina em Destaque

30 de jul de 2018

Quase metade dos assassinatos de junho foi feminicídio




CIARA CARVALHO
Viviane arrumou um novo namorado.
Maria Clara era só uma menina.
Virgínia foi estrangulada com um fio de ventilador.
Adilma tinha uma calcinha azul no bolso.
Antônia vivia sob ameaça.
Ivane já havia apanhado outras vezes.
Amanda queria amar de novo.
Letícia apenas não queria mais.
Oito vidas interrompidas. Em comum, a sentença de morte decretada pela simples condição de ser mulher. Praticamente metade dos assassinatos de mulheres ocorridos no mês de junho deste ano foi feminicídio. A estatística é assustadora. Dos 17 crimes, oito tiveram motivação de gênero. Em números absolutos, o quantitativo só fica atrás do mês de janeiro, quando foram registrados nove casos. Mas, proporcionalmente, o mês passado teve o pior cenário desde que o projeto #UmaPorUma começou a contabilizar os homicídios de mulheres em Pernambuco.
Em janeiro de 2018, foram 28 assassinatos, sendo 32% dos casos considerados feminicídios. O percentual de quase 50% de crimes de gênero registrado em junho revela que o sentimento de posse sobre o corpo da mulher continua a determinar o limite entre a vida e a morte. Um machismo com consequências ainda mais graves. Em dois dos oito registros, não só a mulher foi assassinada. O atual namorado também.
Em Abreu e Lima, no Grande Recife, Amanda Reges de Medeiros, 25 anos, foi arrastada com o companheiro, Bruno Raphael Alves Eloy, 27. Ela: dois tiros na cabeça. Ele: sete disparos no corpo. Na mesma Região Metropolitana, em Ipojuca, Viviane Maria de Oliveira, 29, mal teve tempo de tentar. Pouco mais de uma semana após iniciar um novo relacionamento com Paulo Cesar Oliveira da Silva, o casal foi assassinado a golpes de faca. Nas duas situações, a polícia aponta os ex-companheiros como autores do crime. Nas duas situações, o absurdo de a mulher não ter o direito de decidir sobre o próprio destino.
A faca cravada na nuca de Letícia Maria dos Santos, 29, é mais do que o choque. É a repetição, a covardia, a impossibilidade de defesa. A professora que dava aula para crianças pequenas estava resolvida a não continuar o relacionamento conturbado e violento que já durava mais de três anos. Finalmente pôs um ponto final. Mudou-se para a casa dos pais. Manteve-se firme.
No sábado, dia de 30 de junho, saiu às 5h30 de casa, no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana. Ia ao Centro do Recife levar uma documentação para iniciar o sonhado curso superior em pedagogia. Com uma faca de cozinha, Jefferson Manoel de Lima, 27, a esperava no caminho. Desferiu seis golpes no rosto, cabeça e pescoço da ex-companheira. Os vizinhos ouviram os gritos de socorro. Mas, quando saíram de casa, Letícia já estava morta.
Jefferson foi preso poucos dias depois do assassinato. Confessou o crime. A morte de Andrea da Silva Cunha, 22, demorou mais tempo para ser esclarecida. Ela foi morta no dia 4 de março, dentro da casa de veraneio onde passava o fim de semana com amigos em Itamaracá, no Grande Recife. Na época, não havia uma motivação clara para o homicídio. Quase três meses após o crime, a polícia concluiu a investigação: Andrea foi morta pelo ex-namorado, que, inconformado com o fim da relação, a seguiu até Itamaracá. A jovem nem pôde se defender. Recebeu o primeiro tiro enquanto ainda dormia. Com a conclusão do inquérito, o mês de março, que registrava seis, passou a contabilizar sete casos de feminicídio.
Houve mudança também na estatística de maio. A morte de Juraneide Ramos do Nascimento, 48, ocorrida no dia 7 de maio, foi classificada pela polícia como feminicídio. O suspeito do assassinato, José Leandro da Silva, 63, morava com a vítima, numa granja no Cabo de Santo Agostinho. Quando o inquérito chegou ao Ministério Público, no entanto, o caso não foi denunciado à Justiça como crime de gênero.
Este mês, o MPPE informou que houve um aditamento da denúncia e a promotoria incluiu a qualificadora de feminicídio na lista de acusações contra José Leandro. Com a alteração, maio passa a registrar seis casos de feminicídio. No total, os seis primeiros meses de 2018 já somam 37 mulheres assassinadas pela condição de gênero em Pernambuco. É quase 30% de todos os homicídios registrados no Estado neste período.

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