Marina Silva, a candidata sem dinheiro, sem tempo de TV e sem grandes alianças - Blog Petrolina em Destaque

6 de ago de 2018

Marina Silva, a candidata sem dinheiro, sem tempo de TV e sem grandes alianças



Sem o séquito de costume, a ex-senadora Marina Silva chegou abatida a um ginásio de esportes em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, numa noite do começo de julho. Vinha de uma sequência interminável de compromissos, com o visual de sempre: trajes neutros — casaco branco de risca de giz e calça azul-marinho —, cabelo amarrado num coque e olheiras disfarçadas por uma maquiagem suave. Ao discursar para uma plateia de cerca de 300 pessoas, errou um nome — Almickin por Alckmin —, trocou a idade de um correligionário — 60 em vez de 70 — e fundiu as palavras Deus e Jesus — Jeus. A campanha nem bem começou e Marina já está cansada. Sem dinheiro, acorda às 4 horas da manhã para pegar o voo mais barato do dia e dorme de favor na casa de apoiadores quando viaja para compromissos.



Em sua fala, Marina enfatizou que esta será a mais difícil de suas três disputas pela Presidência da República. “Em 2010, pelo menos eu tinha um minuto e 20 segundos (de tempo de TV). Em 2014, dois minutos e 20 segundos. Agora vamos ter oito segundos. Oito segundinhos. Não dá nem para dizer ‘bom dia’ direito”, afirmou à plateia. Depois de listar os reveses, ela incorporou o otimismo e desafiou os presentes a dar início a uma transformação da política: “Será a luta do tostão contra o milhão. De Davi contra Golias. Mas a gente só precisa de uma pedrinha certeira no dia 7 de outubro. A pedrinha é o voto consciente de cada um de vocês”, disse, com dedo em riste e tom mais exaltado que o de costume. Houve quem se emocionasse.

A campanha presidencial deste ano realmente se anuncia a mais difícil da carreira política de Marina Silva, de 60 anos. Além da escassez de dinheiro e de tempo na propaganda pelo rádio e pela TV, ela tem um partido para chamar de seu, mas pequeno e sem uma rede de lideranças capaz de mobilizar eleitores em seu favor. Com essas condições, e numa disputa pulverizada entre mais candidatos, Marina precisará superar, acima de tudo, seu modo muito particular, um tanto invisível e quase inócuo de fazer política. Suas andanças recentes atrás de votos têm sido quase imperceptíveis. Seja por confusão da equipe de comunicação, seja por suas próprias idiossincrasias, a performance da candidata pouco alcança o público. Enquanto Jair Bolsonaro, do PSL, seu concorrente mais bem posicionado nas pesquisas eleitorais, lota aeroportos e arrasta multidões em eventos populares, Marina se restringe a lançamentos de pré-candidatos desconhecidos da Rede Sustentabilidade — o partido criado por ela — e palestras para plateias reduzidas. Para driblar a falta de tempo de TV, há duas semanas começou a fazer, nas redes sociais, uma espécie de “horário pessoal gratuito” ao vivo.



Se na campanha de 2014 Marina viajava de jatinho alugado pelo PSB e carregava pelo menos três profissionais da comunicação em cada agenda, nesta anda mais solitária. Ela foi de avião de carreira a Contagem para o lançamento da candidatura ao Senado do missionário evangélico e ex-jogador de basquete Kaka Menezes. Estava acompanhada de apenas dois correligionários da Rede e de uma assessora política. “Por enquanto, o partido não tem verba para mandar equipe (de comunicação)”, afirmou sua assessoria de imprensa. Na manhã do evento, Marina havia passado — ela própria — num sacolão para comprar as frutas que comeria ao longo do dia. Deu entrevista para uma rádio, visitou uma escola, um asilo e um centro de reabilitação de viciados e posou para foto ao lado de pré-candidatos mineiros da Rede. Nenhuma das visitas às instituições estava na agenda divulgada para a imprensa. Não foram, portanto, noticiadas. Em cima da hora, uma entrevista coletiva foi antecipada da noite para a tarde — e só os veículos de comunicação locais foram avisados.

Pouco antes do início do evento, um organizador se desesperou ao saber que, por restrições médicas, a presidenciável não bebe em copo de plástico. “Meu Deus do céu! Pega o meu carro, vai na minha casa, faz o que precisar para achar um copo de vidro!”, ordenou a uma colega. A novidade não havia sido notada nas campanhas anteriores.

Marina chegou com atraso de uma hora e 20 minutos ao ginásio de esportes com paredes verde-limão e 325 cadeiras de plástico espalhadas. O clima era de confraternização. Ela fez selfies com potenciais eleitores, distribuiu apertos de mão. Acompanhou com palmas ritmadas um jingle feito para ela — “Seja bem-vinda, Marina, o Brasil precisa de gente que quer lutar. Seja bem-vinda, Marina, mulher que ensina, é fiel e que sabe amar”.

No palco, ela dividiu a atenção da plateia com o pré-candidato da Rede ao governo de Minas Gerais, João Batista dos Mares Guia, irmão de Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula —, além de Kaka Menezes, a estrela da noite. As falas dos políticos foram precedidas por depoimentos de ex-viciados que deixaram as drogas depois de frequentar uma instituição de reabilitação do ex-jogador. Em determinada altura, a campanha ganhou ares de culto. Um músico dedilhava baixinho um violão enquanto o ex-jogador discursava, ora suave, ora exaltado, com pausas típicas de pastores em pregações. Menezes citou versículos da Bíblia — “Bem-aventurados os pobres de espírito, pois é deles o reino dos céus” — e mencionou Jesus. Marina também inaugurou sua fala agradecendo a Deus, como faz sempre. Foi aplaudida três vezes em meia hora de oratória.

A candidata da Rede chega a sua terceira disputa presidencial com a mesma cabeça das duas primeiras, avessa a uma campanha mais profissional. Sua agenda prioriza compromissos que não atraem multidões, mas que falam com o eleitor individualmente, olho no olho. “A construção da agenda da Marina é um problema crônico: tem efeito político reduzido, atende a interesses paroquiais e só fala para convertidos”, afirmou um ex-integrante de sua campanha. “Ela acredita demais em seu carisma. Acha que sua história de superação, por si só, é capaz de criar uma identidade com o eleitor.”



ÉPOCA comparou a agenda pública dos três candidatos mais bem colocados nas pesquisas. De abril a junho, Marina teve 43 eventos em nove estados, além de uma palestra na Inglaterra. No mesmo período, o pré-candidato Ciro Gomes (PDT-CE) computou 63 — ou 46% a mais — compromissos em 11 estados e três países — Estados Unidos, Argentina e Suécia. A assessoria de imprensa do deputado Jair Bolsonaro não divulga sua agenda, por afirmar que “o pré-candidato não está em pré-campanha”. Em suas redes sociais, entretanto, é possível contabilizar viagens a 11 estados.



Para compreender a lógica política de Marina, é preciso revisitar suas origens. Ela despertou para a militância e para os movimentos sociais no final dos anos 1970. Ao lado do ambientalista Chico Mendes, assassinado em 1988, Marina deu início a um processo para fortalecer politicamente os camponeses da região de Xapuri, no Acre, em meio ao avanço de desmatadores e latifundiários que derrubavam a Floresta Amazônica para dar espaço à criação de gado. Esse jeito “marinês” de fazer política — olho no olho com pequenos grupos — é chamado por estudiosos de grassroots, ou raiz de grama, que não sai do chão. “Ela e seu entorno preferem falar com um grupelho de estudantes da Universidade de Brasília a se preparar para aparecer no Jornal Nacional”, afirmou outro ex-membro, presente em suas duas últimas campanhas. “É um tipo de atuação política eficiente para algumas coisas, mas não para ganhar uma campanha presidencial num país continental.”

Enquanto o Fundo Eleitoral da Rede Sustentabilidade tem míseros R$ 10,7 milhões para subsidiar candidatos à Presidência, à Câmara dos Deputados e ao Senado, a maioria dos partidos concorrentes conta com somas bem maiores. O MDB do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles encabeça a lista dos endinheirados, com R$ 234,3 milhões. O PSDB de Geraldo Alckmin vem na sequência, com R$ 185,8 milhões. As legendas de Ciro Gomes (PDT) e Jair Bolsonaro (PSL) terão R$ 61,1 milhões e R$ 9,2 milhões, respectivamente. Como Marina, todos terão de dividir esses recursos com outros candidatos.

Ela contará em sua campanha com metade do fundo da sigla, R$ 5 milhões, bem menos do que os R$ 44 milhões gastos em 2014, quando concorreu pelo PSB. Define sua campanha como “franciscana”. Em meados de julho, Marina lançou uma vaquinha na internet. A meta era conseguir R$ 100 mil para a realização de eventos em cinco capitais — objetivo alcançado em cinco dias. A segunda é alcançar R$ 200 mil, que serão usados para combater o que chama de “mentiras, acusações levianas e notícias falsas” de adversários.

Numa noite de junho, Marina se reuniu com potenciais apoiadores na casa do apresentador de TV Luciano Huck — que até fevereiro era, ele próprio, um potencial concorrente ao Palácio do Planalto. Estava acompanhada de três pessoas de seu círculo íntimo. Ao grupo de interlocutores, ainda antes de começar o jantar, contou a quantas andava a campanha e listou nomes de coordenadores já definidos. Por fim, expôs as dificuldades da disputa, como escassez de recursos e tempo de TV, além do que considera uma blindagem feita por três partidos — PT, MDB e PSDB —, quando eles criaram, no Congresso, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC).



No jantar de três horas e meia, o anfitrião e a mulher, a apresentadora Angélica, serviram peixe de rio e arroz branco, para atender à rigorosa dieta seguida por Marina, alérgica a várias substâncias devido a doenças que contraiu quando morou no seringal no Acre. Embora tenha apresentado os problemas da campanha, em nenhum momento Marina pediu ajuda financeira ou propagandística a Huck, entusiasta de sua candidatura. “Marina não pede, não é? Talvez esteja aí uma das questões que a impedem de estar mais bem estruturada”, afirmou um dos presentes. “Se você é um líder político sério, com tanto tempo na vida pública e zero de track record negativo, não deveria ter prurido em pedir.” Huck, por sua vez, não mencionou intenções de colocar a mão no bolso. Fez um mea-culpa por não ter se envolvido mais com política no passado e reiterou que participará mais ativamente no futuro.



Às vésperas da convenção nacional da Rede, em plena temporada de costura política, Marina e seus articuladores pouco têm se reunido com outros partidos em busca de coligações. Até meados de julho, falaram somente com legendas médias ou pequenas, como PPS, PHS, PROS e PV. “Marina teve quatro anos para fundar um partido, e ele só diminuiu”, afirmou uma fundadora que deixou a Rede. “Ela não tem a mínima condição de manter a candidatura se não fizer coligação com partido forte.” A candidata se recusa a negociar com os partidos do chamado centrão, aos quais se refere como “atravessadores do sonho brasileiro”. Com 164 deputados, o centrão tem um dote eleitoral de entre três e cinco minutos por dia na propaganda gratuita de rádio e TV e estrutura nos estados. Sem alianças amplas e com só dois deputados no Congresso, Marina terá oito segundos diários no rádio e na televisão.



Em vez de partidos, ela prefere se relacionar com movimentos, ou os “núcleos vivos da sociedade”, em marinês. Bem no estilo grassroots, reuniu-se com os movimentos Agora!, Acredito, Brasil 21, Roda Democrática, Reforma Brasil e Frente Favela Brasil, de diferentes espectros políticos. O economista e escritor Eduardo Giannetti, conselheiro econômico de Marina nas campanhas de 2010 e 2014, disse em entrevista ao Valor Econômico que ela precisa decidir se é uma líder de movimento, como o americano Martin Luther King e o indiano Gandhi, ou uma candidata a chefe de Executivo. Por enquanto, Marina ainda não se definiu. ÉPOCA

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